Loading...
Loading...

Antes de você começar sua leitura, deixe te dizer: sou colunista pelo Ideia de Marketing e este artigo foi publicado originalmente por lá. Se você quiser conhecer outros textos que escrevo para o Ideia, só clicar aqui. 🙂

A “cultura do eu” e ânsia por aceitação parece ser o desafio do século.

Ir contra ou abraçar a ideia?

E nesta exigência, tenta-se aperfeiçoar pensamentos e doutrinas. Tal exposição torna-se equivocada com o passar do tempo, já que o indivíduo não compreende de fato, o que é isto ou aquilo. O entendimento dos significados. Traduzindo: fala-se muita asneira, sem fundamento ou causa definidos. Existe uma linha tênue entre cuidar de mim, cuidar somente de mim e cuidar do outro. Lutar por mim e minha lucidez e lutar pelo outro. Vamos refletir um pouco sobre tudo isso.

Assisti recentemente a entrevista de Marília Gabriela em seu canal do Youtube, com o professor, historiador e filósofo Doutor Leandro Karnal – “A solidão nas redes”. Os treze minutos de aula do vídeo despertaram a necessidade de expor algumas palavras transcritas por aqui. Recomendo fortemente que você o assista:

A impressão é que quanto mais expressivo sou nas mídias, mas sozinho estou. Ou, quanto mais expressivo fulano é, mais sozinho beltrano fica. As demasiadas opiniões e barulhos estão gerando desconfortos e inibições, logo, muitos estão se isolando. Abrem-se portas para a depravação, humilhação e preconceitos.

Vamos lá: pelo o andar da carruagem, a consciência coletiva está sendo abordada de outros jeitos. O timing traz a percepção de novos ideais e articulações fortes. Inclusive, como você tem acompanhado, há pessoas ditas empoderadas e outras dizendo estarem empoderando sobre algo. Mas do que realmente se trata este termo? É somente a minha expressão e construção de força sobre determinado assunto? É somente a delegação de autoridade? Segundo Iório (2002) a origem ainda não é bem definida. Tanto o movimento negro norte americano do início dos anos 60, quanto os movimentos feministas, disputam a sua procedência. No entanto, o conceito ganha força teórica e instrumental, a partir de sua utilização vinculada à questão de gênero, por exemplo. Segundo Berguer e Luckmann (2008), o homem produz o seu mundo social que, por sua vez, também atua sobre ele num movimento dialético. A exteriorização, a objetivação e a interiorização, são momentos desse processo, que fazem com que a sociedade seja ao mesmo tempo um produto humano e uma realidade objetiva; o homem produtor e produto do social. Já Freire traz outra perspectiva. (O texto da minha colega, Sabrina Kelly, “Empoderamento e produção de conteúdo: você precisa entender essa relação!”, também expõe mais destes conceitos).

Empoderar, portanto, deve ser compreendido como um processo racional, sem começo ou fim. Certo? Talvez uma luta pelos direitos e resistência constante contra a opressão e as desigualdades – incluindo as que fazemos com nós mesmos.

Segundo o artigo “A utilização da ideia de ‘empoderamento’ em Políticas Públicas e ações da Sociedade Civil” por alunos da UFMG, “O empoderamento não pode ficar restrito a esfera individual, uma vez que há uma legitimação social dos saberes e poderes instituídos e repassados as novas gerações. Para romper com o legado histórico, com os ciclos e espaços de dependência, exploração e subordinação (BRASIL, 2008, p.29-30), é necessária uma articulação coletiva, instituindo novos espaços, novos saberes, legitimando-os coletivamente e ampliando o seu impacto social e político. Afinal, como afirma Freire (1987, p. 34) ‘a liberdade, que é uma conquista, e não uma doação exige uma permanente busca’”.

E neste âmbito, cabe conversar sobre as relações. A internet não só preenche o vazio da existência humana, como diz Karnal. Não se trata de equívocos ou devaneios falsos – embora muitos optam por estes caminhos -, mas de ressaltar para o meu público tão generoso o que considero mais importante deste ou aquele momento vivido. As plataformas facilitam a possibilidade de não termos mais o ônus, a responsabilidade da relação (porque com um simples ato de clicar em unfollow eu resolvo meu problema com você).

Entretanto, os relacionamentos não são de fato obrigatórios, já que pode-se viver sozinho. E este ‘olhar para si mesmo’, para um espelho e conviver somente com o seu reflexo impiedoso e mentiroso é assustador. Por isso, é recorrente a busca pelo compartilhar do medo, do que é sofrido e desprezado por você. A busca pela distração. E nesta, indiretamente, o aprendizado de novas faculdades, comportamento e evolução. Então: “obrigatoriamente não precisamos nos relacionar, mas nos distraímos de nós mesmos através das relações.” (E hoje, em sua grande maioria, pelas mídias sociais).

Satre diz, em seu princípio do existencialismo, que “a existência precede a essência”. Segundo esta escola de pensamento, não existe um modelo de felicidade ou relação. Mas isto não me absorve de sentir ou viver. Em outras palavras, eu continuo amando, me compadecendo, compartilhando, mas não necessariamente da forma que todos estão fazendo. Então, quando articulado sobre força e expressão, é preciso recorrer à cultura. “Uma das características da cultura é tornar natural o que não é natural. ” – O ato de empoderar segue este caminho.

Não quer dizer que a Internet não é verdadeira. Quer dizer a existência independe da Internet. Existe a evolução através do tempo (como dito no meu último texto). Nossa identidade é formada de acordo com os padrões configurados daquele tempo que nascemos e crescemos. A comunicação morre em um período, e renasce em outro. Ela é fluida. Assim como a cultura. E ainda, assim como posicionamentos e articulações.

Mas a opinião não pode ser embasada somente por um único critério.

O que tudo isto tem em comum?

  1. As pessoas podem se empoderar por si mesmas? Não há uma resposta tão clara quanto se parece. Um “sim” não é suficiente. Existem indivíduos vivendo em ambientes opressores, não sendo capazes por si de se desvencilharem de alguma situação. Por isto, é importante ressaltar que dificilmente alguém se “empodera” por si só, ou seja, consegue romper sozinho com situações de coação e exclusão. Portanto, é necessário que as condições sejam propiciadas a estas pessoas. E ainda, que outros olhem por este indivíduo. O exercício de compaixão e empatia (aos que acompanham meus textos sabem que tenho feito questão de frisar estas palavras);
  2. Se eu não entendo o contexto que vivo, não sei dialogar;
  3. Hoje, não há equilíbrio da exposição na Internet. Logo, não há ponderação nas palavras ditas;
  4. Seguindo esta linha de raciocínio, se eu não possuo equilíbrio das minhas emoções e linha de pensamento, não detenho legitimidade para romper padrões, discutir estereótipos, falar sobre identidades;
  5. A não-compreensão de minha identidade social e cultural torna mais árdua e difícil a luta pelos meus ideais.

Perceba que, no final, faz necessário conectar aspectos pessoais filosóficos – como estou me sentindo e expondo -, para então tratar do processo social e as transformações necessárias para evolução.
Trabalhe com resistências nas ações e relações; em novas criações e exteriorização de suas habilidades. Lembre-se que você é mais capaz do que imagina ser. Use sua história para motivar e recriar. Viver não é somente extremar, mas desprender-se e influenciar. Viver é sentir. É não delimitar sua força.

Ah! Viva mais o remoto.
Talvez seria: “viver e empoderar”? 😉
Obrigado pela leitura e até o próximo texto.

Comments(0)

Leave a Comment