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Ensaio sobre Profundidade

Quão profundo é o seu olhar?

 

Nele, as coisas vão e voltam. As ondas se misturam. As palavras também. A maré sobe e desce, diminui e aumenta. Volta e vai, e quando chega por lá, quer voltar de novo. Palavras regressas. Movimentos disformes. Cores e descores. Amores, desamores.

O oceano está imerso nas cores turvas. Algumas saltam mais fortes que outras: escalas de cinza com pitadas de tons vibrantes, como as dos corais. Saltam querendo ser vistas. E descobertas. Ficam por muito tempo escondidas e desvalorizadas – bom, o valor não pode ser mensurado quando não há o mínimo de contato, não é? Então, vamos mudar: elas não se sentem desvalorizadas. Talvez sozinhas? Se colorem para elas mesmas. Cores por cores. Porque existem lugares mais profundos e bem distantes no oceano em que as cores estão desprotegidas, flutuantes, esperando a maré chegar e, com ela, de mãos dadas, seguirem adiante.

Cores são poéticas, mesmo as escuras. Talvez as escuras tragam o drama que as claras, por serem tão transparentes, não conseguem expor. Há beleza no escuro. E mesmo que subjetivo, conseguimos enxergar. Porque cada um viveu uma experiência com escuro que trouxe habilidades para vê-lo. E senti-lo. As sombras que os rochedos reproduzem e aleatoriedade ordenada que cada uma traz de ensinamento sobre tantos acasos. O oceano tem disso: quanto mais profundo, mais escuro. Quanto mais superficial, mais claro. Ou não. Não quer dizer que as cores claras sejam superficiais. Mas, se você pensar, nosso olhar sobre as cores tem uma capacidade ilustre em determinar muitas coisas, inclusive escolhas. Escolher o que é belo. Ensaiar novamente sobre o belo.

Perspectivas.

É a fantasia das cores que nos move. Desde o escuro ao mais claro. São sonhos traduzidos pela sensibilidade. E infelizes são os que vivem por euforias rasas; que não mergulham em sua existência. Todo olhar possui um tesouro. Todo tesouro faz o olhar brilhar. Existem olhares que não estão satisfeitos com seus próprios tesouros, e ainda existem os tesouros que se escondem de olhares já cheios de tesouros. Preciso buscar os meus próprios tesouros ou olhar para os que estão em mim?

Uma pessoa bem resolvida consegue velejar. E, ainda, velejar em seu próprio mundo. E enquanto viaja, entende que pode renunciar jogando suas iniquidades no fundo do oceano. As ondas leves pela manhã e a maresia no final de tarde lhe fazem sentir como se este fosse o seu lugar. Quando você chega na praia, acontece o vislumbre da imensidão. O que preenche todo o espaço, que antes estava comprometido com o caos e barulhos sem destinos certos, mas agora abre-se para a paz e descanso. Uma admiração tão grandiosa que cabe dentro de sua respiração. Respiração aliviada por estar ali. Aquela visão nostálgica, como se você pertencesse àquele lugar, sabe? A memória de um lugar que poderia ser seu. Ou ainda, o pensamento de que poderia ter aproveitado mais no passado. Só que, até alcançar este vislumbre, você queima os pés nas dunas, se arranha entre os espinhos dos galhos secos pelas trilhas e se queima com o sol, por ter se esquecido de passar o protetor solar. Esqueceu de se proteger. Curioso que existem umas areias claras, outras mais escuras. Umas finas e grossas. Sujas e limpas. Mas isso não quer dizer que uma queime mais que a outra. Se correr, queima menos, mas o cansaço é maior.

 

“Submergir” por B&D Gomes @brunogoomes

Retroceder.

O processo de vislumbre lhe faz declinar. Não desistir, mas voltar ao que antes você não tinha percebido. É o refugir das cores. Então, você recua com o seu ego, diz para ele aquietar-se e contemplar a sua simplicidade – sejam turvas ou cítricas, embaçadas ou não (há certa beleza em cores embaçadas). Quando você passa pelo penoso caminho, os verbos enfim mudam: Deixar seus pés afundarem na areia e sentir a brisa no rosto; escutar o som majestoso das ondas; contemplar a virtuosidade da natureza.

“Nós nos sentimos bem em meio à natureza porque ela não nos julga.”

Nietzsche diz que estamos “desnaturalizados”; que na cidade precisamos representar um papel porque estamos muitos preocupados com os pensamentos alheios. Mas, ao voltar à natureza, podemos nos dar ao luxo de sermos nós mesmos. Nos deixar levar pelo mundo natural em direção ao nosso interior, onde um manancial de tranquilidade nos espera. Abrem-se novas nuvens no céu e novas cores no mar. Tudo se refaz. E tudo está sincronizado. É como se estas cores lhe olhassem e, tão docilmente, sussurrassem em seus ouvidos que por ali você pudesse desfadigar-se.

Gavetas. Pois é, o oceano nos faz lembrar de gavetas – mais uma vez. E você pode ler sobre elas, neste link.

A percepção harmônica do horizonte com céu traz novas melodias à sua história. Oceanos têm disso: lhe fazem voltar ao início e despir o caos que era. Era. Não precisa ser mais hoje. Nem amanhã. As cores do céu azul e a imensidão do mar são para todos. O vislumbre é para todos. Vislumbrar é retirar escamas dos olhos, ou tirar os óculos escuros por um instante; ou ainda, ceder. Nem sempre todo texto será justificado. Sua vida, justificada. Está tudo bem ficar (ser) desalinhado. Até porque, somos tão fluidos. Destilados. Indelicados.

Não se torne igual aos outros, ao ponto de ficar à deriva, sua embarcação naugrafar e não mais o notarem, neste mar de sabotagens por aceitação.

Pertencimento.

A linha do horizonte e seus mistérios me seduzem. Posso ficar por horas, até o final da tarde, hipnotizado. A cor do pôr do sol é uma de minhas preferidas. Ótimas para fotografias. Aquele amarelo ouro que traz a sensação de novidade e suavidade na vida. Quando vou ao litoral, gosto de me sentar em algum lugar retirado e observar as ondas. Sabe as encostas, com grandes abismos que dão frio na barriga? O ponto em que as duas ondas colidem e se tornam uma… é curioso. Vêm de tão longe… durante anos, milhares de anos, viajando pelo tempo, para se encontrarem. E assim, colidirem. E voltam ao mar aberto, para buscar uma a outra de novo. Em instantes, se perseguem. Então ficam mais frouxas e cedem. Se olham, se beijam, se misturam harmoniosamente. E se afastam. E voltam. E se afastam, para voltarem novamente alguns anos depois. É curioso como as ondas se relacionam. Talvez o conceito de relacionamento para elas seja outro, o qual os humanos não compreendem. Talvez eles, os humanos, não aprenderam com elas como é ir além.

E eu, que não posso deixar as pessoas me colocarem em suas próprias tempestades.


Referências

  • Fotos gentilmente cedidas pelo fotógrafo e instagramer Bruno Gomes, do ensaio autoral “Submergir”. Elas fazem parte de seu acervo e você pode conferir o magnífico trabalho em seu site: www.bdgomes.com e Instagram @brunogoomes
  • Este é o capítulo “Ensaio sobre Profundidade” do livro #AConstrucaoDoOlhar, 1ª edição disponível de forma gratuita em PDF.  Você pode baixa-lo direto NESTE LINK.
  • Mais sobre o projeto no Youtube, no Instagram documentado (e pelo blog):

 

 

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