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Nem sempre

A vida e perspectivas.
Nem sempre é. Uma vez, saí cedo de casa pra pagar contas. Já estava planejando meu roteiro: sacar dinheiro no banco, ir à loteria e tomar um café com o troco. No meio do caminho, recebo um telefonema lembrando de uma conta extra que precisava pagar com certa urgência ou aqueles serviços seriam suspensos. Meu café não aconteceu – e confesso que essas ligações me deixam um tanto transtornado.

Nunca fui do tipo que se prende ao dinheiro. Quando tenho, gasto. Não vejo lógica em guardar e economizar e prevenir e poupar e resguardar e… Esse mundo não é meu. Sempre me desprendi em conhecê-lo a aproveita-lo como se fosse meu último instante (você lendo isso deve achar que sou rico e viajo o mundo. Porque são estes os relatos que doutrinam por aí, dizendo para lagar tudo e essas mentiradas todas. Bom, de utopias, todos temos um pouco). Mas, me desprendo quando saio para um novo cinema, uma nova praça, um novo mirante. Um novo céu.

Infelizmente, nem mesmo um novo café a gente pode tomar. Nem sempre é como queremos.

Nem sempre seu currículo definirá quem precisa ser.

Nem sempre haverá o que guardar de memórias. Nem sempre existirá o sentimento que você espera. Nem sempre será do jeito que planejou.

Nem sempre com quem você anda dirá quem você é.

Outro dia, escrevi uma carta. Era sobre relacionamentos. Essa coisa evasiva e pomposa. Esses dois extremos. Na minha época, para darmos um beijo, precisávamos passar por todo um processo de côrte, respeito e reverência. Para mim, segurar nas mãos de alguém já me tornava alguém. Poder sentar em sua presença já definia minha conquista. Me tornei um clássico – alguns diriam ultrapassado.

Me tornei o que não lutei por isso: essa coisa arcaica e sem futuro, como dizem. Ou, para outros, algo novo e diferente. Me tornei o que nem sempre é.

Nem sempre sou. Estou.

Você vai escolher a música, apertar o play, mas nem sempre vai dançar acompanhado.

Nem sempre o silêncio será preenchido.

São as insignificâncias, as migalhas e os pedaços que, juntos, te erguem. Nem sempre será uniforme e harmônico. Nem sempre precisa ser. Há beleza no que não é para sempre. E neste pensar no futuro, há beleza em não pensar mais nele. Nem sempre tudo estará lá na frente. Talvez esteja aqui, agora, no troco que sobrou de uma conta.

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