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Episódio X
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PARTE I/III
(01/01/18)

[Phillemon]

Meus olhos abriram [sequência dos oito acordes iniciais no piano, da música referenciada pelos personagens]. Embora fadigados, se abriram, como flores preguiçosas no seco outono do Sul. Sonhos dentro de sonhos. Ao som da introdução em piano do instrumental de “Crazy Dreams”, de Carrie Underwood – não a versão country original, mas a releitura minimalista feita pela série Smash (link Spotify) – levantei me opondo à mesma rotina que, em sua congruência substancial, ajuda a me tornar eu. A formar o meu eu, embora não me sinta completo. Aquela mesma história. Blá blá blá, vivendo um clichê. Se não bastasse cada dia com seu mal, nos conflitamos com as escolhas profissionais que fazemos. Vou ao banheiro e me olho no espelho, buscando sair desta história. Confronto o inquieto artista dentro de mim. Esmurro minha imagem por dentro, questionando por que não fiz Economia, como meu pai queria. “Vamos, Phille, mais um dia. Você consegue driblá-lo”. A música nasceu em mim, mas confesso que o senso financeiro, não. Deixa lhe contar: artista não pensa em dinheiro, só que chega uma hora que o dinheiro se torna prioridade para o artista. Todo mundo tem contas para pagar. E, mesmo sofrendo as cobranças, me sinto (quase) realizado. Falta algo. Falta oportunidade. Visibilidade. E ainda assim, falta algo.

Durante a aula de percepção musical com aquelas crianças pela manhã, sentei no banco do piano e parei os dedos. Costumava chamá-las de “minhas”, por tanto carinho e admiração. Pelo orgulho de ensiná-las. Só que chega um momento que você se dá conta. Sabe este momento? Estagnei em preocupação. As olhava e pensava: “será que sabem o que as aguarda? Elas realmente querem estar aqui ou seus pais as obrigam, enquanto projetam suas próprias frustrações?”. As crianças, inocentes no criar, inspiravam todos os dias em minha própria criação, aquela sem referências. Lúdica, autoral. Simples. Phille. E ainda assim, faltava algo. Um respeito tão grande pela educação, em especial a infantil, mas não era minha área de especialização. Fui à direção da escola e pedi demissão. Tantos anos desempregado, mesmo com titulação de mestre, sobrevivi de bicos. Apresentava algo aqui e ali. Pedia ajuda aos meus pais nisso e naquilo. E então, quando consigo um trabalho efetivo como este aos trinta anos, desisto. Muitas coisas incompatíveis. Muita censura incompatível. De noite, em pé frente ao piano da sala, organizando as partituras que pretendia treinar, ele me oprimiu: “essa hora, não”. Na mesa de jantar, eu me retraia, contorcia, me abatia – por dentro. Semblante apático. Vida sem sentido. Meu pai argumentando as péssimas escolhas que fiz, desde minha adolescência, “porque um homem aos trinta anos precisa ter sua própria casa e formar uma família”, “se você tivesse feito carreira e trabalhado na empresa da família, seria bem-sucedido”. Coisas assim. Palavras neste tom. Nos últimos dez anos, conquistei tudo sozinho, mas nunca valorizado. Reconhecido. Porque eu não escolhi o que ele queria que eu escolhesse ao dezessete. Nem mesmo carteira de motorista tirei. “Que absurdo, um homem formado sem habilitação”. Cansei de ter minha arte censurada. Cansei de pessoas reacionárias. Foram meses em pesquisa, assistindo vídeos de outros profissionais no Youtube. Naquela noite, arrumei duas malas, uma mochila, meu sax e, ao amanhecer, saí (fugi?) em busca do meu sonho. Em busca da minha arte. Em busca de mim.

[Ísis]

Meus olhos já estavam abertos, mas gostaria que estivessem fechados. Para sempre. Ao som do instrumental em piano de “Crazy Dreams”, de Carrie Underwood – não a versão country original, mas a releitura minimalista feita pela série Smash – levantei me opondo à mesma rotina que, em sua congruência existencial, ajuda a me tornar eu. A formar o meu eu, embora não me sinta completa (e existe tal coisa?). Desde o nascimento, tudo era motivo para desistir. Não via motivos, na verdade. Não enxergava ideais. Porque as pessoas lhe definem pelo o que veem. Constroem seus olhares somente através de suas perspectivas (déjà vu). Mas se sentissem o que eu sinto, seriam mais compreensíveis. “Você nasceu errada!”. “Você não se encaixa aqui”. Palavras assim e neste tom, referenciando meu físico. Blá blá blá, vivendo um clichê. Me inspirei na doçura e suavidade da voz de Megan Hilty nesta música e comecei a cantar. Enquanto soltava delicadamente as notas, minha vida se movia, como nos filmes açucarados. Flashes da minha infância “perdida” – não para mim – em hospitais, tratamentos, cirurgias. Choros. Alegrias. Fiz aulas de canto quando pequena, mas reprimi por não querer me expor. Ainda lembro das unidades de compasso e tempo, a tabela proporcional de valores e escalas. “As figuras rítmicas são sinais convencionais representativos das durações. A duração não é absoluta e em cada figura representativa do som, há uma correspondente e representante do silêncio”. Eu era péssima em bater palmas nas semicolcheias, marcar a semínima com o pé e cantar no ritmo do grupo. Até pensei cursar cinema mas, em minha região interiorana, não tinha. Graduei em Turismo quando nova pela ânsia em descobrir o mundo e, quem sabe, viver em outro mundo. E ainda assim, faltava algo.

Ele estava comigo por… não sei. Sinceramente, não sei porquê. Dizia que eu fazia muito drama da minha vida. Que só sabia reclamar e chorar pelos cantos, mas nunca se interessou em saber por que eu chorava. Questionava minha performance na cama, querendo que eu fosse outra. O sexo, de olhos fechados. O beijo, olhos abertos. As mãos… só as minhas. Agora me lembrando, nunca senti as dele em mim. Quatro anos assim. Esta é minha configuração de amor. Na adolescência, não me permitia, me excluía, nem mesmo me possuía. Toda uma vida sustentada por opiniões alheias. Alicerçadas por inseguranças. Quando o conheci, vi minha redenção. Ilusão. No jantar, em minha própria casa conquistada de forma tão árdua, ele não me dava espaço. Falava, dizia, murmurava. Eu ouvia, retraria, me contorcia, me abatia – por dentro. Minhas cores, sempre apagadas. Agradeço os Fundamentos da Economia e Contabilidade que me ajudaram a trilhar o futuro, porque hoje, aos vinte e oito, posso recomeçar. Foram semanas pesquisando e assistindo orientações no Youtube. Naquela noite, quando ele nem sequer quis passar a noite, arrumei duas malas, uma mochila, minha coragem e, ao amanhecer, saí (fugi?) em busca do meu sonho. Em busca das minhas cores. Em busca de mim.

[Narrador]

Ísis usa roupas harmoniosamente leves e coloridas, que não chamam atenção. Agradáveis de ver. Cores, amores. Estatura baixa e minguada. Sua colocação diplomática destoa dos que passam, zombando de sua postura física defeituosa. Ouve pop e prefere sucos das mais variadas frutas. Phille, platônico e consensual, envoltos em temperamentos fleumáticos e melancólicos. De coração partido, mas ainda apaixonado – por alguém, pela música. Despreocupado com roupas. Desconstruído com a vida. Atento às sutilidades do cotidiano. Acadêmico, cultural, histórico. Ouvido musical absoluto, de causar inveja. Jazz e R&B. Prefere café com um pouco de whisky.

Seguindo:
Phille e Ísis, insatisfeitos, acharam naquele mês a oportunidade que sairia do chato e convencional: próxima temporada em alto-mar, trabalhando no cruzeiro! Após entrevistas – em dias separados -, passaram semanas de treinamento e preparos da documentação: STCW, C1D, PPD e mais uma porção de cuidados. Ele, contratado pela agência recrutadora, Sea Life, como Animator Cruise Staff. Ela, Tour Escort. No mesmo navio. A mesma jornada. Embora, quatro meses confinados sem ao menos se esbarrarem. Imagina, 300 tripulantes + passageiros. Nova rotina, ambiente, pessoas. Lugares. Era isto: novos lugares. Distantes, trilhando as idealizações e inebriados de automotivações, seguiam ao desconhecido. E ainda assim, faltava algo.

Parecia um sonho. Parecia. Uma rotina de trabalho bastante antipática e puxada, já que não havia um dia de folga por completo. Havia, sim, lacunas na jornada de trabalho: um empregado de quarto, por exemplo, trabalha das 6h00 às 13h00, volta entre as 16h00 e 23h00 e este é o tempo que se tem para dormir ou – e não “e” – descontrair um pouco com a tripulação. Quase onipresença. Ele, horas em shows, cantando a mesma coisa, entretendo turistas. Ela, horas em pé falando a mesma coisa, recebendo turistas. O assédio moral, intenso. A discriminação às suas nacionalidades, enorme. As empresas italianas então, as piores, tratando mal os tripulantes e, pelas costas, também os passageiros. Cansaram de ver comida manuseada por pessoas sujas e em condições precárias nas cozinhas (as agências de vigilância sanitária sequer imaginavam o que se passava ali dentro), mas estas mesmas pessoas não são de todas culpadas. O sonho de conhecer outras culturas e viajar “de graça”, não existia. Uma coisa é ser hóspede, outra, tripulante. Trabalho escravo bem maquiado – maquiagem daquelas caras, ainda –, mesmo ganhando o salário em outra moeda. Subalternos. Subjugados. Não era um conto, muito menos de fada. Muito menos ainda, tempo para reproduzir a tão clássica cena de Titanic na proa do navio, acompanhados de golfinhos e trilhas romantizadas. Viram colegas passarem mal e não receberem atendimento médico. Ouviram superiores humilharem e não serem penalizados.

Mas, como a vida tem dessas coisas, um dia, mudou. Phille e Ísis pressentiram terra. Avistaram mistério. Era uma monstruosa ilha e, atrás dela, um (novo?) continente.

Após cinco meses a bordo do MS Dream, em suas poucas horas de lazer, desceram à tão sonhada terra. Quase bíblica. Quase prometida. Ísis, mesmo com conhecimento de sobra, se dirigiu ao escritório do Porto para se informar de novas direções. Ali, vislumbrou o futuro: “contrata-se”. A Zona Portuária precisava com urgência de uma nova gestão na área de Turismo, com carga horária diferenciada – e que teria autonomia para ir e vir. Phille, procurando por um café, aquele com gosto de café, dirigiu-se à Taberna D, um estabelecimento que funciona como cafeteria/pub e hostel, e vislumbrou o futuro: “contrata-se”. A Zona Áurea precisava com urgência de um novo coordenador artístico, com carga horária diferenciada – e que teria autonomia de criação. A trilha “Crazy Dreams” subiu e continuou. Agora, sem interlúdios. Sem interrupções. Em dueto, ainda sem se conhecerem, cantavam nos cenários diferentes que ocupavam. Algumas frases, Ísis melodiava novas notas. Por vezes, Phille fazia a segunda voz, como no final “just like you”. Correram ao navio, fizeram as malas novamente e se reportaram ao RH dizendo que não iriam completar o contrato de oito meses. Ela primeiro, por estar mais próxima. Ele, um pouco em cima da hora do navio seguir, pela Taberna encontrar-se mais longe. Mas conseguiram. Seguiram. E não olharam para trás. Desceram da rampa quase juntos. Extasiados! Quando firmaram os pés na orla, concluíram o dueto, sem descobrirem um ao outro. Parece que agora o sonho começava, de verdade [sequência dos oito acordes finais no piano, da música referenciada pelos personagens].

 

PARTE II/III
(11/01/18)

Durante aquela semana, buscaram familiarizar os novos comportamentos. Observar o ide das pessoas que os cercavam. Decerto, as burocracias o prendiam um pouco – essa coisa de sempre depender de coisas e pessoas -, mas deu para andar pelas Zonas (em outra oportunidade, lhe conto sobre elas). Criaram autonomia, senso geográfico e memória fotográfica. Era diferente de onde vinham: cortes de tecido, cheiros, disposição dos produtos nas bancadas, maresia… Em alguns momentos, interrompiam suas caminhadas e pensavam no que haviam feito. “Largei tudo. Todos. Será que pode dar certo?”. Em outros, continuavam na certeza de renovo. Afinal, (loucos) sonhos são assim.

10 dias se passaram. Tudo foi tomando forma para Phille. Em cima da loja de esquina, En Provence, na Zona Comercial, um antigo galpão médio foi lhe indicado. Este espaço inacabado, todo em branco, seria uma galeria de arte, mas, por algum motivo, não deu certo. Acontece. Ainda vazio e em pó do chão ao teto, seria o local perfeito para ele se estabelecer. Ficar. Recomeçar – com sua vida e com este lugar. Durante a limpeza, encontrou entre os escombros de obra, resquícios do que seria a primeira exposição do local: dois livros em capa amarela e título central minimalista: “Dreams” e “Opportunities”, do artista Johan Deckamann (link Instagram). “Dreams” possuía certa de 900 páginas, enquanto “Opportunities”, menos de 100. Oportuno. Irônico. O momento certo para a reflexão. Phille, como todo zelo, os guardou, para mais à frente dar o destaque merecido ao artista. Como um lembrete. O universo lhe entregando um recado? Silêncio. Pegou seu sax. Produzindo eco e propagando realizações, improvisou “Broadway, Here I Come” (link Youtube).

Ísis conseguiu alugar um apartamento poucas quadras atrás, aquele perto da fronteira, quase saindo desta Zona. 508. Este já estava decorado, mas fez questão de redecorar. Ficar. Recomeçar – com sua vida e com este lugar. Pegou seu caderno e começou a escrever cartas. Mesmo sem sentido ou um destinatário definido, isto lhe trazia conforto e a ajudava centralizar. “O meu trabalho é conduzir, seja diante do mar, na Zona Portuária, ou só por palavras, entregando cartas. Embora não faça parte da minha formação acadêmica sinto que faz parte de mim, sabe? É intrínseco. As palavras me movem. Me tornam alguém. É como confio em mim mesma, acreditando ser capaz de amar, doar”, dizia. Parou contemplativa na janela e pensou como tudo estava acontecendo rápido. Inesperado. Sonhado.

 

E a música-história foi tomando forma no movimento dos dias. No contrato de Phille dizia que seu trabalho, em maior parte, seria na Zona Áurea – a tal da ilha misteriosa que visualizou primeiro quando chegou. Por lá, o vilarejo em ruínas seria reconstruído em um projeto de novos pontos culturais: um teatro, a nova galeria e gastronomia local. Então, se direcionou à Zona Portuária para as informações de direção e locomoção até esta ilha. Tão poético quanto o entardecer, ele entrou no escritório iluminado. Determinado. De costas, estava esta mulher vocalizando baixinho em hamming aquelas oito notas da trilha que o inspirou a estar ali. Ele parou para apreciar a voz. E postura. Apreciar as cores. Ela, quando se virou envergonhada, interrompeu a melodia. Neste romantizado instante, os olhos fixaram um ao outro. Para ele, era como se estivesse assistindo a grandiosa e imponente criação de um arco-íris. Explosões de cores! Os olhos dela, tão profundos ao mesmo que delicados, comunicavam. Refletiam. Expressavam múltiplos sentidos. Sinestesia! Magia. Ela, hipnotizada com os incríveis olhos verdes e sua nobre e alta altura, sonhou mais uma vez. Os dois sentiam. Os dois queriam. Os dois, encantados, sorriam. O silêncio entre, falava mais do que uma introdução formal. As reticências permaneceram por quase um minuto, até que ela conseguiu romper o engasgo e dizer ao menos seu nome:
— Ísis — objetiva, estendeu sua mão direita ao cumprimento embaraçoso.
— Phille, pra–zer — engolindo o engasgo, retribuiu o cumprimento embaraçoso.

Em poucas palavras, com a boca seca, ele conseguiu dizer os porquês. Ela, tão amistosa, disse que o conduziria ao escritório das navegações à ilha, dois quarteirões de onde estavam. Ele a seguiu pela orla, em passos desconcertados. Imagina, um homem de quase dois metros, tímido. Ela, miúda, não mediu forças e certa autoridade ao direcioná-lo. Conversaram pouco nesta caminhada pelo extenso deque, sob o rosado entarceder, mas suas gargalhadas eram ouvidas de longe. Foi gostoso vê-los assim. A paleta de Ísis aos poucos mostrava presença. A voz de Phille, aos poucos, fazia jus ao tamanho. Aquele frio na barriga, assentava. “Amigos de anos!”, se alguém os visse e não soubesse de suas músicas. Histórias.

Alguns dias depois…

Quando a cafeteria Taberna D na Zona Comercial abriu, Isa não hesitou ao entrar rápido, em busca do seu sonho (Opa, quem é Isa?). Ainda vazia de clientes, percebia outro clima. “Vibe”, como ela gostava de usar. Sentiu-se transportada para um novo lugar: arquitetura, as cores, luzes. O lustre… ah, o lustre… todos se encantam. A música chamou atenção: um casal [Phille e Ísis] ensaiava/performava numa plataforma de canto a versão cover de “Cruisin’” (link Spotify) por Gallant e Andra Day. Sentou-se no banco do balcão do bar e assistiu os três minutos e meio de música. Que cena! E quando acabou, os aplaudiu. O casal, tão cordial e harmônico, agradeceu. Risos. Simpatias. Atmosferas. O dois saíram de cena para o interior aberto em anexo ao estabelecimento, dando a deixa para Isa prosseguir sua história, junto ao gerente sentado em uma das mesas próximas a vidraçaria frontal do estabelecimento— Pausa!

 

PARTE III/III

A terceira parte você confere dia 21/01 😛

*****

Socorro, Arthur, quem são estas pessoas? Por que estes nomes? Do que se trata esta história? Aonde estão? Calma, são fragmentos (devagar é mais gostoso, vai por mim). Phille e Ísis fazem parte do elenco de uma narrativa muito maior. Te convido acompanhá-la e conhecê-la por aqui, no blog. Inclusive, vamos construi-la juntos. Qual será o futuro deles? Me conta. Obrigado por ler e até a próxima parte 😉

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