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Indefensável | Parte 1

Prelúdio> Hoje acordei e tomei café com minha sombra. Conversei com minhas cicatrizes.


Intro> Normalmente, quando você acorda, o primeiro lugar que vai é o banheiro, não é? Se estiver muito escuro, acende as luzes e se olha no espelho. Enquanto se depara com sua imagem, o que você vê? As olheiras entregando o mau sono; você percebeu os anos que se passaram e sua pele parou em algum momento de te acompanhar. Alguma acne que resolveu surgir durante a noite. O cabelo te desafiando. Os dentes ficando cada vez mais amarelados mesmo que você use aquelas pastas que dizem clarear a cada vez que você os escova, e a preguiça sem fim de passar o fio dental. Os pelos da barba encravando e você sem tempo pra cuidar deles. Você poderia ter se esforçado mais pra não ter comido tanto na noite anterior e ter poupado a consciência pesada em ver seu peso aumentando. A cicatriz que por muito tempo definiu quem você é.

Mas não é só isso. Você projeta todos os seus compromissos do dia naquele momento. Lembra-se de sua agenda. Gesticula e conversa com você mesmo. Entra às pressas no chuveiro; mal passa o shampoo. Certifica-se que pelo menos conseguiu despertar. Quando sai do banho, onde está a toalha? Quando volta pro quarto, bate o dedo mindinho do pé na quina da cama (e esta é a hora em que você realmente desperta). Abre o armário: tudo confuso, se não for algum uniforme, pega a primeira roupa que encontra: aquela calça jeans que você talvez irá usar a semana inteira e alguma camisa básica. Tenta ajeitar o cabelo com algum produto que provavelmente vai acabar com ele. Abusa do perfume, contrariando sua rinite que te acompanha há anos e sempre diz pra não usá-lo demasiadamente (mas você nunca aprende), te deixando mais mal humorado. Se estiver frio, pega mais de um agasalho pra depois ficar carregando o dia inteiro nas mãos.

Sai correndo, estressado por não ter tido tempo de tomar café; o celular descarregado, as chaves que você não encontra… E assim começa o seu dia – porque, até então, você só estava acordando. Mas quando você se olha no espelho, qual história você vê refletir? #sorriaolivro

 


 

Arthur Barbosa

 

Interludio> A rotina nos corrói. Nos aprisiona.

Há beleza na loucura. E ainda, poesia no que é ordinariamente desequilibrado. Aquela peça que não encaixa. O humor disperso e atônito. As escolhas fora do padrão. Há uma beleza tão única em olhares desconstruídos. Ai de mim adquirir a habilidade do equívoco em perder quem sou. Então, a real diferença estaria nesta linha tênue em perder-se de mim, para mim, para o outro?

Arthur Barbosa

Não posso ficar em eterno limbo. Não quero. Não fique.

Tem gente que agride, porque possui medos. Se vinga pois foi injustiçado. Se machuca por mero prazer. Justifica atos por meios. Cada um em seu universo expõe diálogos equivalentes ou adjacentes ao seu eu. Mas, você não é justificado, porque este é ser declarado justo em glória, grandeza.  É ser colocado em nível utópico ou ideal. Por graça, você possui méritos de justiça – e até amor (talvez incondicional?). Por meio de algo ou de alguém, a justiça acontece, mas ela não é inerente. Não faz parte de sua identidade caída e equivocada.

Conversando com um grande amigo, Alex, ele compartilhou estas palavras:
“Antes, seres humanos sujeitos ao externo que ajuda a moldar o interno, enquanto o nosso interno se exterioriza e se materializa na pressão sobre o outro e os outros (…). O meu lar sou eu. Não há como se sentir bem onde não conheço ou onde não espero conhecer. Se o seu lar é a construção do que o outro deseja, pode haver um risco enorme de estar em um não-lugar, um não-lar. A negação daquilo que você é ou precisa. Deixar sozinho poderia ser apenas uma forma de pedir para não interferir. Poderia ser ainda mais, uma luta em seu interior, desejando estar consigo e seus anseios para se conhecer(…). Ficamos incompletos nessa história por não sermos capazes de nos mostrar e ser inteiramente. Claro que é mais que isso, mais complexo. Mas começa aí.”

 

“Don’t lose who you are,
in the blur of the stars.
Seeing is deceiving, dreaming is believing.
It’s okay not to be okay.
Sometimes it’s hard to follow your heart.
But tears don’t mean you’re losing, everybody’s bruising.
Just be true to who you are.”

 


Por isso, tire os sapatos do armário. Limpe a poeira de si mesmo. Vista-se das bagunças da sua mente, mas vista-se. Faça textos desalinhados, mas faça. Em algum momento você terá que separar os homens dos meninos, as mulheres das meninas, e as ferramentas dos brinquedos. E acredite, não tem tempo certo pra isso. Não é aos dezoito, nem aos trinta. Temos a ilusão do acrônico, mas não há tempo. Simplesmente, é. Acontece. Os movimentos da vida te fazem acontecer. A rotina simples – dos detalhes, das manias -, te movimenta. Os pânicos se tornam seus melhores amigos. Sua sombra brilha. Seu olhar muda.

Posludio > Você entende que possui mais cicatrizes do que imagina. E que o seu sorriso é atemporal.

Obrigado por ler até o final. Na próxima parte do texto, quero conversar contigo sobre o tempo, escolhas e propósitos.
Se tiver algo a acrescentar nesta reflexão, fique à vontade!

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Créditos e links:
Fotos por @giovanipierre
Mais fotos em meu Instagram   

Três letras pra sua playlist:
Wrong Man – Matt Corby
Who you Are – Jessie J
Everything will Change – Gavin DeGraw

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