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(e é assim que escolho começar minha jornada no blog, falando sobre elas)

Quando começa a chover, automaticamente coloco em “músicas de chuva”, mesmo que só em meus pensamentos. Aquelas em que o violão ou o piano estão bem preguiçosos, e que te fazem velejar por águas distantes.

Quando está chovendo, penso em livros. Netflix. Penso em café – e o aroma do café. Palavras não ditas. Vinho. Coisas velhas. Fotos novas pro Instagram e filtros em escalas de cinza. Penso em lareiras. Chocolate. Lembro do desastre, aquele da cidade, e outros tipos de desastres… Acho que os trovões deixam minha mente perturbada – não de loucura (talvez).

Penso no mar e a maré subindo. As ondas sim, incrivelmente atordoadas. Que belo vislumbre! Há quem diga que deste jeito fica mais fácil ser levado por elas (quem nunca levou um caixote na vida?), aceitando o que não gosta pra não morrer afogado na praia. Mas a maré muda, vai embora, e você fica ali, afogado, independente do que ela tem a dizer sobre você.  Você só possui a ilusão de fazer parte por um tempo da tempestade, até vir outra maré, e outra, e outra… Não seria melhor ficar apenas boiando a mar aberto?

Quando está chovendo, lembro-me de gavetas. Uma gaveta nunca é somente uma gaveta.

Gavetas são essenciais. Mas já parou pra pensar como elas sofrem? Coitadas. Pessoas batem, derrubam, dão tranco, deixam entrar poeira, se esquecem do que guardaram… deve ser difícil ser uma gaveta. Elas escondem recordações e felicidades por anos! Segredos por uma eternidade. Sorrisos dos mais espontâneos, letras das mais sinceras (saudades das letras em papel de fichário). Futilidades e responsabilidades. Tem as gavetas das cuecas e meias, das roupas de academia, pra sair e ficar em casa. Gavetas organizadas e outras nem tanto. Tem a gaveta de fotos e negativos *.*, a gaveta comportada, cheia de artigos científicos e matérias que você não entende porque cursou mas continua guardando, e ainda tem a dos bilhetinhos. Se gavetas falassem…

Muitas roupas amarrotadas, mas, o que já foi passado deve amarrotar o presente? Deixar guardado ou pôr pra lavar?

Umas insistem em não fechar, outras em não abrir. Umas estarão sempre guardadas – mesmo que eu as descarte em alguma tempestade. Mas estarão sempre guardadas.

Talvez eu precise comprar uma roupa de mergulho, aprender a nadar e ir contra a maré.

Talvez não.

Talvez eu não precise satisfazer a curiosidade alheia sobre minhas gavetas. Gavetas não são de domínio público. Por isso, não faça suposições. Seus argumentos são mais bagunçados do que elas.

Há ainda rumores de que as gavetas só abrem e fecham, e talvez seja tudo o que sei. Afinal, gavetas são só gavetas.

Quando você olha todo o armário, e não só aquela gaveta, percebe tantas outras coisas que merecem sua atenção. Partes do armário que são até mais importantes. Interessantes.

Há detalhes suficientes para que se compreenda. Explicar seria estragar a poesia da coisa. Mas, talvez as gavetas nem saibam que são gavetas, e que fizeram parte de sua história, seu mundo, suas tempestades.

Quando a tempestade passa, e quando conseguimos abrir os olhos, descobrimos que aquelas ondas tão altas também precisaram fazer um esforço muito grande pra chegarem até a praia. Elas também precisaram lutar contra o tempo. Contra o frio e embarcações perdidas. E compreender que, como o tempo, tudo passa.

Mas gavetas sempre serão poéticas. E sempre irão me inspirar a escrever.

O que você tem a dizer sobre elas?

** este texto não foi feito só por mim. Obrigado todas as pessoas que fizeram parte dele (algumas sem saber 😌), e o embelezaram com suas filosofias gaveteiras.

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