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Quando vi o celular, várias chamadas. Um gosto amargo desceu pela minha garganta. A ânsia me fez parar. Deixei de lado. Mais tarde, novamente, ela retornou. Eu sabia o que iria dizer. As justificativas que usaria. Os tropeços que daria pelas palavras. Mas ainda não estou pronto. Deixo para amanhã.

Acordei me lembrando de palavras que ontem faziam tanto sentido, mas que hoje, não vejo o porquê existirem. E então, ainda antes de levantar, abro o Instagram (porque é assim: antes de nos preocupar com nossa vida, queremos lamentar ou celebrar – e até invejar -, a do outro) e vejo Adele divulgando seu novo single.

Os comentários saltavam da tela, como gritos desesperados, mas felizes por ter voltado, e mais, por ter voltado com a mesma vibe de antes, traduzindo tudo o que queremos dizer, mas não conseguimos. No Twitter, a mesma reação. Mandei um print para alguns amigos mostrando o que estava ouvindo, mesmas reações. Os compartilhamentos no Facebook, também. Frases de fardos pesados saindo dos ombros. O alívio de ter enfim alguém que os compreendessem.

Todos implorando por perdão, mas ninguém com coragem de pedi-lo.

Todos desejando mais do que podem.

Todos frustrados mais do que deviam. (E há algum limite para a frustração?).

Preciso confessar: às vezes acho que a Adele faz parte de algum serviço secreto e fica me espionando para escrever suas músicas. Porque não é possível!

Quem nunca pegou o telefone e ligou pra desabafar? E no ímpeto, disse o que talvez trouxe arrependimentos. Ou então, quando começou a tocar, desligou. É aquele velho disco arranhado, cantando as mesmas letras, dizendo as mesmas promessas. Adele traz isto. Mas veja, é um arranhado que está sempre novo, porque eu estou sempre construindo novos conceitos sobre o amor, embora os que vivi me digam para esquecê-lo e desligar o telefone.  Antes, a paixão. Veio a conquista. E então, a desilusão. Depois o término. Agora, o perdão. A redenção.

Você me lembra que preciso praticar o desapego, e seguir em frente. (Mas, posso vez em quando voltar a trás?). Eu sonho em voltar à cabana com você, e viver intensamente tudo o que escolhi acreditar ser afeto. Aquele refúgio que encontro no seu abraço. Quero morar no seu abraço. E nele, aceitar essa doença, este medo, as inseguranças, o tesão de ouvir sua voz. O susto de ouvir o telefone tocar e o frio na barriga em retornar. Há tantas coisas que preciso ouvir de você, por tudo o que me fez passar. Mas, deixe-me pedir perdão primeiro. Me desculpe se não fui tudo o que esperava. Estávamos doentes.

Mas espere, eu existo. Existe vida em mim. Eu sou completo sem você. Essa mania de acharmos que só seremos felizes se estivermos juntos. É preciso ponderar algumas coisas. Coincidência ou não, esta semana uma grande amiga me enviou um texto fantástico que ilustrou minha vida e abriu os meus olhos. “É um insulto tentar tornar o Outro, aquele que te rejeita, refém da sua loucura com as inúmeras tentativas de ver nas entrelinhas de um gesto educado, esperança para algo maior. É uma insanidade viciar-se na adrenalina da manipulação do “não te quero, mas não te deixo” e ficar idealizando histórias sólidas com pessoas afetivamente indisponíveis. ” Isso faz-nos pensar. A carência afetiva não é amor. (Link – Sugiro muito ler depois, pois posso acabar não traduzindo fielmente algumas palavras. Você não vai se arrepender).

Todos nós já vivemos o fascínio, o zelo. E o excesso.

Adele traz em sua produção o conceito artístico cíclico, com um tom padrão. Sua arte é autêntica. A dramaticidade exposta em música. É o “esperado inesperado”, e talvez seja o motivo da identificação. Somos assim: igualmente explosivos e ferozes quando pensamos em alguém. E digo explosão tanto negativa como positiva, viu? Talvez a palavra que encaixe melhor seria: intenso. Somos seres intensos. Um telefonema pode mudar nossa história. Um olhar pode me dizer qual caminho seguir. Uma única voz pode traduzir milhares de outras.

Ela é humana. Falta humanidade nos relacionamentos. Falta o: “eu não sou perfeito, mas frágil. Me ajude a montar os meus cacos, ou joga-los fora e recomeçar. ” E falta ainda uma coisa que todos querem que seja dito, mas ninguém diz: “me desculpe por ter te usado. ”

E ela só tem 27 anooooss!! Vivemos amores precoces… não, desculpe, o amor não é prematuro, ou passageiro. Nós que vivemos entre vendavais. E repito: é intenso. O que é tão forte assim não pode ser desvalorizado.

Estou cansado de pessoas cheias de si, que só sabem falar de si mesmas. Você me atropelou com seu excesso de palavras. Você não me ouviu. O seu discurso me cansa.

Nós assistimos este discurso diariamente. A sociedade artística trabalha suas diretrizes tendo o (dez)amor como base. Sempre mesma mensagem. Umas com propriedade, outras só comerciais. Conotações, indiretas, ingenuidades, provocações. Todas desesperadas. Buscando. Se cansando. Amando? “Porque o amor não se sente. Se vive.” – já dizia o poeta. O amor te convida a permissões. A telefonemas demorados (ou áudios com mais de três minutos).  É o que nos move – ainda quero acreditar nisto.

Sim, eu sei, sou um embaraço. Uma corda com vários nós. Admiro suas convicções ao se apaixonar por mim. Por ter visto em mim algo bom. Obrigado por me encorajar, e me mostrar que o seu silencio era a sua forma de dizer que me amava. Se hoje eu aprendi a silenciar, foi porque, de alguma forma, desvirtuada, você me ensinou. Em meu silêncio, me encontro. Me (re)crio. (link)

O prazer precisa ser mútuo. Correspondido. Não satisfaça por prepotência. O seu vazio só será preenchido quando você tiver o conhecimento de si. Domínio de si. Permita que o outro te ajude a se encontrar.

Admito ter a “Síndrome de Adele”. Acredito que todos temos um pouco (se você for pisciano e acreditar nessas coisas, você tem muito mesmo!). Pedir perdão é ter maturidade suficiente para não só olhar para trás, mas anunciar a você mesmo, um prenuncio de liberdade. Aceitar a liberdade. E viver a liberdade. Solte aquele nó na garganta. Aquele engasgo. O que te impossibilita de apreciar a vida. Ainda há tempo de se recuperar. Hoje você pode concertar o que se rompeu, e remover todo o lixo.

Por favor, viva intensamente cada instante. E viva o seu tempo primeiro. Nós não conseguimos celebrar os segundos juntos, e nos perdemos de vista. Mas isso não impede de prosseguir. O seu desejo me ensinou sobre reconhecimento. Reconhecer de fato o que é amor, e por isto, eu vou buscá-lo agora. Não espero que entenda, não preciso de compreensões, preciso ser livre. Não chegue a este ponto novamente.  Eu quero que você seja feliz. Hoje eu aceito as minhas cicatrizes, mas elas não me definem. Alô, Adele. Eu te perdoo.

Comments(2)

  • Alex
    23 de outubro de 2015, 23:39  Responder

    Já comentei no feice. Não tenho muito mais a dizer aqui. Somos nós cantando e pensando. Ao mesmo tempo, somos nós recebendo essa canção e esses pensamentos. Viver é tudo isso? É tanto amor? É tanto amar? É tanto querer? Sei não. Mas é bom ver e entender em sus textos esse carinho pela nossa fragilidade enquanto humanos. Ser frágil não é desculpa. Ser frágil e aceitar isso é fortaleza. Querer, aceitar, tentar, sonhar, acertar e errar… verbos que traduzem o desejo de viver.Talvez por aí ou muito pelo contrário. Talvez amar seja amar a si primeiro para compreender que o outro tem algo de mim, mesmo que esquecido em suas motivações. Amar a si mesmo em toda a sua dimensão é um passo fundamental para poder se lançar no mar dos outros amores. Ou não. São devaneios. São impressões. São pensamentos de quem pensa no amor, desiste do amor (e do outro nesse amor) e volta atrás.Enfim… Obrigado pelo texto, uma luz. E parabéns!

  • arthurbarbosa
    24 de outubro de 2015, 00:18  Responder

    Eu juro que ia copiar lá e colar aqui, porque seu comentário faz parte deste texto! Obrigado por me emprestar um pouco de suas sábias palavras. “Nem uma coisa nem outra. Talvez sejamos humanos.”

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